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[LIVRO] O Fim da Infância

Livro: O Fim da Infância
Autor: Arthur C. Clarke
Editora: Aleph

Direto ao ponto: não quero fazer essa resenha. Se quiser encontrar uma, o Arara fez uma resenha que não foge muito do que a que eu faria. Mas então para não ter nada de novo, vou fazer a resenha de uma forma diferente: ao invés de uma tacada só, dividi a resenha aos poucos, a cada vez que lia uma parte fui escrevendo, sem ter a noção do todo. E fique avisado: se você é fã inveterado de Clarke, pare de ler agora. Pare de ler também se não quiser spoilers.

1.

Em plena corrida espacial da guerra fria, o mundo para completamente para presenciar a resposta definitiva à pergunta “Estamos sozinhos no universo?”. Naves imensas pairam sobre as principais cidades do mundo. A história prossegue com o secretário geral das nações unidas e com o fato dele ser a única pessoa que se comunica diretamente com os alienígenas, agora conhecidos como Senhores Supremos (nenhuma explicação é dada sobre como eles ganharam essa alcunha tão notável). Esses senhores proibiram qualquer tipo de guerra e violência na terra, e magicamente conseguiram isso sem nem mesmo mover um músculo, e ainda planejam a fusão do mundo inteiro em um único estado global.

Após anos com essa presença inegável e comunicação indireta, os grupos contrários ao domínio alienígena (que é incrivelmente pequeno) fazem suas passeatas para que os dominadores revelem sua verdadeira forma. O secretário é sequestrado por radicais, que são pateticamente derrotados pela engenhosidade dos ETs. Para aplacar a fúria dissidente, os senhores anunciam que em 50 anos revelarão sua forma. Pode parecer inútil, mas guarde bem essa informação…

2.

Prosseguimos com a humanidade sob o jugo externo. E aqui o livro adquire um ponto culminante: ele se torna um dos piores livros que já li, disputando acirradamente o posto de primeiro lugar. É medonho, intragável e enfadonho. O livro encarna definitivamente o “mito do bom selvagem”. A humanidade simplesmente se torna um paraíso, sem guerras, violência, doenças ou mesmo opiniões discordantes. Somos apresentados a um mundo que se torna no parque dos ursinhos carinhosos, novamente sem nenhum impacto, nenhum tipo de tensão nessa transição de caos para utopia. É a pior análise social, tão mal feita que o livro entra em contradição várias vezes e faz afirmações que não fazem sentido nenhum. Ele está fazendo a análise de uma sociedade não humana, mas jura que é o mesmo planeta em que vivemos. Diz coisas como “todos eram felizes”, e alguns parágrafos depois diz “é claro que nem todas as pessoas gostavam do mundo sem a possibilidade de aventura ou engrandecimento”, diz que a sociedade ficou livre do câncer do puritanismo, se entregando a todos os prazeres, e depois diz que as pessoas não tinham mais os prazeres como suas aspirações. E a declaração “uma mente bem fornida está livre do tédio” me lembrou death note.

É complicado explicar toda a dimensão da caca que ele fez. Outros livros que retratam o mundo futuro podem viajar, mas com as explicações dadas você até sente a verossimilhança, ou sente aquele arrepio de que aquilo realmente pode acontecer, aquilo parece humano. Esse livro não. Ele se poupa em explicações e apresenta uma sociedade mais alienígena do que os invasores, uma estrutura que não faz sentido nenhum. fiquei muito tempo achando que os senhores dominavam a mente do mundo inteiro, mas o livro é tão ruim assim mesmo. É uma leitura enfadonha.

3.

A sociedade inteira deixa de ser o foco, para entrar um casal em cena. A narrativa continua ruim, mas pelo menos faz um pouco mais de sentido. A sociedade “madura” passou seu tempinho fazendo a brincadeira do copo, a típica diversão pré-adolescente. A sociedade está completamente adaptada aos seus senhores, que, a propósito, possuem a forma padrão dos demônios, com cascos, chifres, asas e cauda pontuda. Esse casal resolve ir morar numa ilha isolada onde ainda havia desenvolvimento de artes. Acho que o único ponto que concordo com o livro é que, dado tudo o que ocorreu, todas as formas de criatividade definharam e morreram. Os senhores anunciam que deixarão a humanidade em breve.

4.

O livro tenta se redimir. Finalmente chegamos à ficção científica clássica, dada pelos sonhos psiônicos dos filhos do casal, que estão evoluindo para uma outra raça, não humana e com super-poderes. Os senhores revelam que sua missão aqui era garantir essa evolução, pois essas novas criaturas chegariam ao ponto de se unir com os senhores supremos dos senhores supremos, uma entidade metafísica conhecida como A Mente Suprema. A humanidade estava evoluindo para o ponto em que alcançariam o estado de uma única mente, o clímax do conceito de memória racial, em que todos os indivíduos descobrem serem um só, etc, etc. Essa parte, apesar de mais delirante, é aceitável e até mesmo legal por que o autor deixa de tentar fazer com que ela realmente parece verdade (a não ser o ponto da memória racial, mas nesse ponto do livro já estou calejado).

Detalhe: essa memória racial que dá origem à mega-mente é atemporal. A mãe teve os sonhos do filho que ela teria muitos anos depois, e coisas assim. e isso é a explicação do porque a humanidade tinha pesadelos com a aparência dos senhores supremos: essa evolução da raça humana causará a destruição da terra, e como eles estavam lá e foram de certa forma responsáveis por proteger esse processo, a humanidade na verdade “sonhava com o futuro”, pois essa memória racial é, além de tudo, atemporal. Engraçado… se a memória racial é tão poderosa a ponto de alcançar porrilênios tanto do passado como do futuro e até mesmo outras dimensões, me expliquem como os meros 50 anos de espera imposto pelos senhores antes de se revelarem poderia fazer alguma diferença?

5.

Um homem havia se infiltrado clandestinamente numa das naves espaciais, depois de uma visita a um dos planetas dos senhores supremos, está voltando para a terra. Uma terra morta. Todas as crianças do mundo se transformaram na nova raça e foram levadas embora para um local seguro pelos senhores supremos, e consequentemente a humanidade morreu aos poucos, de desgosto. Esse homem recebeu a missão de ficar na terra e gravar sua destruição. Não havia escapatória para o mundo de qualquer forma.

Fim.

Quer um mega spoiler? Coloque cascos, chifres, asas e uma cauda pontuda no flautista e você terá exatamente O Fim da Infância.

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