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[Livro] O Coração das Trevas

Título: O Coração das Trevas (Heart of Darkness)
Autor: Joseph Conrad
Editora: Abril Clássicos

Dois pontos são muito importantes para qualquer tipo de obra ou empenho: Conceito e Execução. Conceito é a ideia a partir da qual a obra é fundamentada, Execução é como a obra é desenvolvida, sendo esperado que ela continue girando em torno de sua ideia inicial. Ficção científica é notável por ter uma afinidade e um empenho muito grande no ramo do Conceito, como eu já falei brevemente no post sobre Duna. Se preocupam bastante em ter aquela “ideia brilhante”, aquele enredo inovador ou vários detalhes para tornar o cenário o mais diferenciado possível. Como esse foco no primeiro aspecto, não raro é enfraquecer no segundo, com livros que realmente tem ideias muito boas, mas histórias fracas (O homem do castelo alto). Existem também aqueles que se sobressaem tanto no conceito quanto na execução (Duna) e aqueles infelizes que não se destacam em nenhum dos dois (estes se perdem no tempo e são esquecidos). E claro que também existem aqueles que partem de uma ideia muito simples, banal até, mas que são tão bem escritos que fazem mesmo um dia qualquer parecer um épico. A mão esquerda da escuridão e A hora da estrela me vêm à mente, o primeiro tem até um império galático como pano de fundo, mas a história na verdade é toda sobre um estranho fora do ninho; o segundo é todo sobre a história de uma vida praticamente não vivida.

O coração das trevas faz parte desse grupo.

Charles Marlow é um marinheiro experiente e calejado, que uma noite resolve contar uma de suas aventuras para seus companheiros de barco. Ele já havia navegado por vários lugares, mas um dia, um ponto no mapa se tornou sua ideia fixa. Um ponto meio inusitado para conhecer, tanto que ele acaba tendo que recorrer a uma tia para ajudá-lo a conseguir uma posição como capitão de um vapor num rio do Congo (não que ele se orgulhe disso).

Logo na viagem para lá somos encarados por ocorrências inusitadas, como franceses que atacavam a floresta vazia, por que tinham certeza de que a floresta não estava vazia, colonizadores mesquinhos e escravos que pareciam vazios. Uma das primeiras coisas a se fazer foi reaver o corpo do antigo capitão do vapor que ele assumiu, a segunda foi tirar o vapor que ele comandava do fundo do rio, e botá-lo para funcionar mais uma vez.

Lá ele ouve falar, repetidamente e em graduações cada vez maiores, de um Sr. Kurtz, o melhor comerciante de marfim que já existiu, um homem de espírito capaz de modelar aqueles ao seu redor e gerar uma admiração imensa. Quando voltasse para a Europa certamente assumirá uma posição muito importante. Mas atualmente sua situação é muito delicada. Ele está perdido no meio do coração das trevas: as profundezas da floresta ou o âmago do coração humano e seus defeitos, você escolhe. Seu ajudando havia sido despachado de volta com o marfim enquanto ele permanecia, e avançava contra o rumo da civilização.

Uma viagem árdua, tensa e claustrofóbica. As pessoas ditas civilizadas não eram dignas de nenhuma confiança, e dominavam seus escravos com a tal missão civilizatória divina enquanto os escravos, inexplicavelmente, obedeciam. Pelo menos na maior parte do tempo. Encontrar Kurtz não foi fácil, e a medida que se chagava perto dele, será que aquela sua imensa fama se manteria? Pior: ele havia permanecido entre os selvagens por vontade própria, assim trazê-lo de volta seria ainda mais difícil, se não impossível, visto que sua saúde estava debilitada.

O coração das trevas é uma sequência de cenas que parecem quadros em uma galeria e uma narrativa que, fazendo uso das palavras do Arara, fazem você encarar o reboco da parede por alguns instantes. É curto em forma, imenso em execução. Nem preciso nem entrar em detalhes sobre os temas abordados, como o horror, o horror do processo “civilizatório” na África; hoje em dia já são bem explorados. Mas o livro permanece novo na arte de sua narrativa e sua leitura agradável e envolvente.

PS: Uma repetição aqui, mas esse livro foi o que inspirou o filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Ótimo filme, que adapta o enredo para a guerra do Vietnã.

A história tem o costume de se repetir.

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