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[Livro] Duna


Livro: Duna (Dune)
Autor: Franklin Patrick Herbert Jr.
Editora: Aleph

Histórias de ficção científica normalmente seguem uma estrutura simples: Imagine um mundo com alguma coisa diferente do nosso mundo atual, pode ser uma versão alternativa de nosso mundo ou então um outro mundo qualquer. Aí o autor discorre uma história que muitas vezes gira em torno desta diferença, mostrando as vantagens, desvantagens, causas, consequências, impactos e curiosidades do que essa diferença acarreta. Autores que seguem essa estrutura padrão correm o risco que se manterem no caminho simples e claro, que sempre leva à estagnação, como contrair a “Síndrome de Jetsons” e ficar simplesmente inventando dúzias de artefatos tecnológicos mirabolantes e vazios de propósito, com uma sociedade de que não precisa mais sair de suas cadeiras flutuantes e por aí vai.

Essa mania de dizer que a tal diferença que deve possuir seu mundo deve ser sempre uma bizarrice científico-tecnológica descrita nos termos mais técnicos possíveis acaba normalmente deixando o prazer total da história restrito a um grupo muito seleto (nerds) ou pior: ele gasta todo seu esforço criativo na confecção do inventário e acaba deixando a história em si como um segundo plano (pra mim os livros do Dan Brown se sustentam de certa forma nessa confecção, mas não irei mudar de assunto). Talvez isso renda um pouco da (talvez má) fama da ficção científica nas opiniões gerais.

Deixar a história de lado seria o maior defeito de uma história, não é mesmo?

Mas Duna é diferente. Talvez seja isso o que mais me surpreendeu no livro. Ele é uma ficção científica? Minha resposta é: Nem notei. A história é tão envolvente e surpreendente, tão bem construída e profunda que as tais diferenças que mencionei nada mais são do que material de apoio. O cenário é tão bem construído e narrado que o que seria uma bizarrice tecnológica se apresenta organicamente em seu meio, com um propósito muito bem definido que deixa você com a sensação que ela tinha que estar lá, por que você se sente na história. Não é à toa que ele é tido como o romance de ficção científica mais vendido do mundo.

Somos apresentados à história de Paul Atreides, filho do duque Leto Atreides e de Lady Jéssica, uma Bene Gesserit, que é um matriarcado que busca o aprimoramento da espécie humana através da procriação seletiva de certas linhagens. O universo segue uma espécie de sistema feudal, com um imperador e a associação das casas maiores da nobreza, o Ladsraad. Mas ele também tem elementos bem modernos, como a Guilda, grupo que detém o monopólio das viagens espaciais; e a CHOAM, companhia que controla a produção que praticamente tudo no universo. Todos esses elementos criam um equilíbrio político e econômico muito dinâmico e delicado. Mas provavelmente o mais interessante deste universo é a Jihad Butleriana, a guerra contra as máquinas que acabou tendo os humanos como vencedores e a proibição de máquinas sencientes (tanto que na salada mista de religiões que existem, um mandamento é comum a todas: “Não criarás uma máquina à semelhança da mente humana”). Isso força a humanidade a desenvolver ao máximo suas habilidades, criando indivíduos conhecidos como Mentats, que são humanos com a capacidade mental tão apurada que são praticamente computadores vivos.

Em meio a tudo isto, a linhagem Atreides recebe a “honra” de serem realocados de seu planeta natal, o paradisíaco Caladan, para o inóspito e totalmente desértico planeta Arrakis, também conhecido como Duna. O detalhe é que esse planeta é a única fonte do produto mais valioso que existe: A especiaria das especiarias, Melange. Essa especiaria é um produto vital para a Guilda e para as Bene Gesserits. Isso seria sim uma honra, se não fosse na verdade um plano dentro de planos para acabar com aquela família nobre, arquitetado pelos Harkonnen (outra casa maior e inimigos jurados dos Atreides, que eram os responsáveis pelo planeta antes da mudança de poder) e pelo próprio imperador padixá Shaddan IV. Uma história de intrigas políticas, traições, aventuras e o dilema de ser confrontado com algo inevitável: o futuro.

Verme da areia: uma criatura icônica e peça chave neste universo.

A história é longa. Tão longa que duvidava que o filme de David Lynch contasse mesmo toda a história, mas depois eu o assisti e ele… Digamos… Percorre sim todo o livro, mas mesmo com quase 3h de duração ele ainda teve que cortar muita coisa. O filme carrega também muito das características das ficções científicas de sua época, como figurinos nem um pouco sutis e outras bizarrices, mas é bom (sim, é difícil aguentar 3h, mas eu já gostava da história antes de assistí-lo). Bem, antes que minha resenha fique ainda mais longa, vou partir já para as considerações finais. Aqueles que quiserem mais spoilers detalhes da história, vejam a resenha do Arara ou mesmo a Wikipedia. Eu sei, eu sei… Só estou meio cansado agora e já deu pra notar que não estou em condições de fazer uma resenha imparcial…

Defeitos? Claro! Críticos não se sentem satisfeitos sem encontrarem defeitos… De qualquer forma, só estou falando desse defeito porque é um defeito que já cansei de encontrar em tudo quanto é tipo de história. Trata-se da “Síndrome do Protagonista”, quando o personagem principal é alguém tão bom, mas tão bom que nem mesmo a história inteira chega a ser páreo para ele. Um herói que é simplesmente (e inexplicavelmente) o melhor em tudo que faz. Não é nem preciso dizer que isso mata a história, pois você não tem mais tensão nem expectativa, afinal, não importa os problemas, depois de alguma cena e um esforcinho a mais o herói vai vencer. Você nem precisa ler a história para saber seu final. E pior ainda que isso tende a produzir protagonistas que são tão profundos quanto poças d’água, sem nenhum traço de personalidade por que tudo gira em torno de seus poderes invencíveis. E consequentemente esse personagem se torna um elemento insuportável.

Não. Duna não chega a tanto. Como eu disse, todos os elementos da história são bem encaixados e os personagens estão muito longe de serem superficiais. Tanto que os super-poderes de Paul nem chegam a ser exaustivamente usados, e sim as consequências de possuir tais poderes são uma grande força motriz na lapidação de seu caráter. Apenas em um momento comecei a ficar com aquela sombra de decepção, quando Paul demonstra ter os poderes das bruxas Bene Gesserit, o incrível intelecto dos Mentats e ainda o “despertar” fornecido pela melange. Praticamente o super-homem, o batman e o lanterna-verde em um personagem só. Mas no final das contas, esse “supra-humano” (“menos que um deus, mais que um homem”) é um dos elementos narrativos, e suas consequências vão além de apenas alguém para salvar o dia.

Duna é um livro que vale cada página. Em seu interior não existe apenas uma história de ficção científica, mas também vários ensaios sobre os mais diversos temas, que vão desde ecologia até a própria estrutura social e o potencial humano. Mais de uma citação do livro é memorável, mais de uma cena faz você correr as páginas com aquela sede voraz por mais leitura. É um livro que irá agradar fãs de ficção, e até mesmo aqueles que não são fãs. Leitura obrigatória. Agora estou esperando a Aleph repetir seu ótimo trabalho com as continuações!

Infelizmente as coisas não são tão simples assim…

  1. Weslunatic
    03/03/2013 às 7:10 pm

    Sua análise é ótima. Duna é surpreendente, agora estou esperando que os outros livros da série sejam relançados.

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