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[Livro] Os Próprios Deuses

gods themselvesTítulo: Os Próprios Deuses (The Gods Themselves)
Autor: Isaac Asimov
Editora: Aleph

Contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão

– Friedrich Schiller, A donzela de Orleans

Este é o último livro que li em 2010, em uma velocidade incomum para mim. Seu título, assim como as três partes em que ele é dividido, foram inspiradas nesta citação de Schiller, que é bastante inspiradora logo de cara. O próprio Asimov (que para quem não conhece é um dos – se não o – principais escritores de ficção científica) o descreveu como o seu romance favorito. Mas voltando o assunto, como eu havia dito, o livro é dividido em 3 partes, e por organização irei analisar cada uma separadamente.

Parte I: Contra a estupidez…
Uma nova fonte milagrosa de energia é descoberta, desenvolvida e implementada com impressionante rapidez na terra e que deu a seu inventor, Frederick Hallam, uma fama e um poder fora de escalas (e ele nem era físico…). O impressionante dessa fonte de energia, conhecida como Bomba de Elétrons, é que ela funciona com base na transferência de matéria entre dois universos, e como estes estão sujeitos a diferentes leis físicas, se torna possível “burlar” a segunda lei da termodinâmica. E assim temos uma fonte de energia limpa e ilimitada…

Ou é o que quase todos pensam. O físico Peter Lamont, que inicialmente admirava Hallam, decide fazer uma pesquisa sobre a verdadeira história da Bomba, mas acaba esbarrando em vários fatos insólitos, como a ausência de documentos originais de como as coisas aconteceram, a arrogância e ignorância de Hallam sobre seu próprio invento, que, na verdade, não parecia tanto ser um invento dele mesmo… E não apenas isto, essa nova fonte de energia coloca o mundo em risco. Em seus primeiros atritos com a verdade, Lamont começa a desenvolver um ódio sobre Hallam, ódio que o conduz a uma luta contra uma personalidade intocável. Afinal, Hallam é o inventor da salvação da Terra…

Ele tenta lutar contra tudo aquilo, afinal é uma estupidez usar uma energia que poderá causar a destruição do mundo inteiro, não é mesmo? É insensato dar uma fama enorme a uma pessoa que não fez nada de verdadeiramente bom, uma fama falsa, não é mesmo?

Sim, com certeza é. Mas a humanidade não segue um caminho sensato, se isso lhe garantir conforto. Será que eu já vi isso em algum lugar? …

É interessante notar também que, mesmo com a humanidade em risco, o próprio Lamont tem um objetivo duvidoso, sendo que ele parece ser mais conduzido por seu ódio a Hallam do que por uma real “caridade” de seu coração, e ele, obviamente, não consegue ter muito sucesso de qualquer forma. Ou seja, é o mundo real com todos os seus fatos ilógicos e cotidianos…

Parte II: … Os próprios deuses…
Para mim, a melhor parte do livro, incrivelmente brilhante e criativa. Falamos anteriormente que a Bomba funciona com a transferência de matéria entre dois universos. Como então seria esse outro universo paralelo, ou para-universo? Ele aparentemente tem apenas uma grandeza física com valor diferente da nossa, talvez isso mude pouca coisa. Quase sempre imaginamos universos paralelos como apenas versões quase iguais aos nossos, muitas vezes com apenas um fato histórico alterado e o resto permanece o mesmo.

Mas as coisas não são tão óbvias assim. A mudança de uma grandeza física faz mudanças de escala cósmica, e um universo que segue leis diferentes pode não ser muito compreensível para nós. E é mais ou menos assim mesmo que Asimov o cria, estranho, exótico e com seus próprios problemas morais que, estes sim, são parecidos com os nossos…

Parte III: … Lutam em vão?
Pessoalmente e em termos de história, acho que esta parte poderia ser removida do livro. A qualidade e profundidade é muito inferior que as duas anteriores, sem toda a conspiração e dilemas morais que perturbam ambos universos. Ela basicamente parte para a descrição da vida na colônia lunar, a chegada de um herói virtuoso, seu romance com a bela donzela e um fraco triângulo amoroso com um patético vilão com traços de megalomania, o único que ainda tem um pensamento insensato. Ou seja, começamos a pegar um pouco do mundo ideal preto-e-branco.

Mas ele tem seu valor por dois motivos: Primeiro, apresenta como seria possível solucionar o impasse da luta Bem maior X Conforto egoísta. Segundo, dá mais das belíssimas ideias científicas de Asimov como parte da salvação da humanidade. Ah, ele também encerra a trama com um final feliz, mas eu prefiro ficar com um final bom do que com um final feliz…

Conclusão
É um livro de Isaac Asimov, não se pode esperar menos que algo muito bom. Ele discute o pensamento estúpido da humanidade com clareza e profundidade, mostrando que todos estamos sujeitos a ele. E a própria dedicatória do livro é algo inspirador…

 

À humanidade e à esperança de que possamos, um dia, vencer a guerra contra a insensatez

  1. Nenhum comentário ainda.
  1. 19/05/2011 às 10:52 pm

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