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[Livro & Filme] O Retrato de Dorian Gray

Título: O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray)
Autor: Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde
Editora: Abril Clássicos

Quando nos deparamos com algum clássico da literatura podemos acabar ficando com um pé atrás. Talvez por que na escola nos obrigavam a ler clássicos que possuíam uma linguagem ou um conteúdo incompatível com a idade, talvez fôssemos obrigados a ler um livro que teve um grande valor em sua época e hoje em dia está meio “gasto”. Talvez tenhamos mesmo o trauma de sermos obrigados a ler algo, não importa o que seja. Os clássicos são assim: Você pode nunca ter lido, mas já ouviu falar, já tem uma ideia do enredo ou mesmo sabe o final. Muito provavelmente você sabe apenas os “pontos mais importantes”.

Foi mais ou menos assim que comecei a ler este livro. Qualquer um que já tenha assistido A Liga Extraordinária sabe mais ou menos o enredo ao redor do qual gira Dorian Gray. Mas apenas depois de começar a ler foi que percebi o quanto se perde ficando apenas no que é “necessário para se passar no vestibular”…

O livro gira em torno de 3 personagens principais: Dorian Gray, um jovem de extraordinária beleza; Basil Hallward, um pintor que tirava toda sua inspiração e sua arte da sua admiração, quase uma adoração, a Dorian; e o personagem mais interessante de todos, Lord Henry Wotton, alguém que adorava opiniões excêntricas e não ortodoxas, e acaba por modelar muito do que é o mundo para Dorian Gray. Quando Lord Henry conhece Dorian, ele decide “experimentá-lo”, pois aquele jovem tinha uma beleza fora do Comum.

Logo no começo do livro conhecemos a obra prima de Basil, o retrato que ele havia feito de Dorian Gray, uma verdadeira obra prima. Lord Henry conversava com Dorian, falando porque a beleza é a melhor coisa que existe, a mais importante e a que realmente deve ser valorizada. Conhecimento pode ser adquirido e ainda tem o problema de te tornar feio. Dinheiro pode facilmente obtido, perdido, trocado, etc, e na verdade é o pré-requisito para quase todas as outras coisas. Agora a beleza não existe em qualquer lugar, na verdade, existe em pouquíssimas pessoas e dura muito pouco, alguns anos a mais, um pequeno acidente e ela se vai para sempre. Isso a torna mais valiosa que o ouro. Era uma infeliz verdade que aquele quadro tinha mais sorte que seu modelo, pois o quadro seria sempre belo, enquanto o original iria se estragar. Aquele pensamento perturba Dorian, e então ele deseja que ocorresse o contrário, que o quadro envelhecesse e ele ficasse sempre belo. A partir daí as coisas acontecem…

O livro é feito basicamente de diálogos, e o próprio autor lamentava o livro parecido com sua vida, “muita conversa, pouca ação”. Mas os diálogos são fantásticos, a expressão “Let’s Think Out of The Box” ganha vida (neste caso, “out of the gray box”, turumtss). Os discursos de Lord Hanry são muito bons, ele sempre defendia opiniões absurdas, e o mais absurdo é que ele tem todo um raciocínio para provar que estava certo. Sua audiência normal nunca tinha uma resposta a altura, e consequentemente se cativava com suas palavras. Suas opiniões nem sempre são boas, mas são sempre interessantes ainda mais acompanhadas de seu raciocínio, não tautológico, mas consistente. Henry tinha sempre o prazer de contradizer seus interlocutores, e quando estes concordavam, ele os contradizia de novo. Consequentemente contradizia a si mesmo, mas ninguém notava.

Ou seja, é um livro que induz ao pensamento. Fantástico.

E acabei descobrindo também um filme inspirado no livro, laçado em 2009 (existem outros, mas fiquei com o mais recente mesmo). Dorian Gray é um filme de Oliver Parker e desde o começo não esperava ver algo igual ao livro, livro e filme são formas de arte totalmente diferentes, e se o filme fosse apenas diálogo, seria difícil não dormir nele.

No começo do filme ficava revoltado… “Cadê os diálogos?! Ficou faltando a melhor parte do livro!”. Mas no final acabei entendo a diferença de visão dos dois. O filme tem um aspecto mais moralizador, coisa que o livro não é. ele também tem algumas coisas um pouco interessantes e uma certa dose de efeitos especiais. O livro mostra homossexualismo, mas no livro não tem homossexualismo revelado, como muitos devem achar, apenas uma “adoração velada” de um homem para com outro, nada consumado. Uma outra crítica forte ao filme é sobre o papel do quadro. No filme ele tem o papel apenas de ser para onde todos os males físicos de seu modelo vão parar, e era isso o que eu pensava sobre o objetivo do quadro antes. Mas no livro ele é muito mais poderoso, ele é o receptáculo de tudo o que é ruim em Dorian, males físicos sim, mas ele são minoria absoluta, tanto que a primeira mudança sofrida pelo quadro é um sorriso cínico e cruel, quando Dorian supera facilmente o remorso de ter desprezado sua noiva por uma besteira qualquer. O quadro a princípio era um conforto de que tudo o que Dorian fazia não tinha impacto nenhum nele, mas depois se torna um acusador. No filme mostra também que as coisas ruins que Dorian fazia era basicamente participar de orgias e usar drogas, mas na verdade ele era mais que isso… Mas o filme tem seu valor por mostrar outro ponto de vista, um pouco mais simples e direta, e com um objetivo mais claro.

Conclusão: Se quer ver um bom filme, veja o filme. Agora, se quer uma boa história, leia o livro.

Categorias:Análises
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