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Formadores de Opinião

arquiteto

Um pensamento engraçado que me ocorreu quando assisti uma palestra de um funcionário da Intel, que tinha o intrigante cargo de “Customer Experience Architect“. Arquiteto, apesar de ser a definição mais comum, não é apenas aquela pessoa que toma conta da estética de uma construção civil. No projeto de produtos, um arquiteto é o responsável pela integração das diversas partes que o compõem, atendendo o objetivo de estruturação do design global do produto. Por isso podem existir arquitetos de sistemas mecânicos, elétricos ou mesmo softwares.

Voltando ao assunto, achei intrigante a ideia de alguém responsável por determinar o que o seu cliente irá sentir ao ver, comprar e usar seu produto. Isso tudo me lembrou do conceito dos “Formadores de Opinião“, que basicamente pode ser entendido como alguém capaz de influenciar pessoas para que elas tenham uma determinada opinião sobre algum assunto, no caso é uma opinião específica que o assim chamado Formador deseja imprimir-lhes. E vale a ressalva que essa opinião pode ou não ser compartilhada pelo seu Formador.

Se existem “Formadores de Opinião”, então devem também existir os “Compradores de Opinião”. Então poderíamos enxergar a Opinião como um produto comercializável. Normalmente você compra coisas que não é capaz ou não deseja fazer por si mesmo. Por exemplo, compro uma televisão por que sozinho não sei fazer uma, ou posso ir a um restaurante por que não estou disposto à cozinhar.

Será que é tão difícil, então, formar uma opinião? Provavelmente sim, pois normalmente não é qualquer um que é classificado como um dos seus formadores.

E o que seria necessário para formar uma opinião? Como qualquer produto, precisaria basicamente de duas coisas: Matéria prima (input do processo) e o processo de transformação nessa matéria prima para produzir a tal Opinião (nosso output). Opinião é uma forma de pensar, e um dos substratos de nosso pensamento é o conhecimento, isto é, algo para se pensar. Conhecimento é algo extremamente abundante, se visto por este aspecto quase qualquer coisa poderia ser considerada conhecimento. Mas da mesma forma que ocorre com matérias primas “materiais”, também existem conhecimentos de boa qualidade e conhecimentos de baixa qualidade, e é preciso escolher. Chegamos então ao paradoxo do ovo e da galinha: É preciso saber escolher (ter uma opinião) para formar uma opinião.

Normalmente os pais ou tutores da criança fornecem os primeiros substratos mentais para o novo cidadão, mas não tudo. Conforme cresce a criança entra em contato com muitas outras fontes, muitos outros formadores de opinião. Não é possível fugir deles.

Mas vamos fugir deste paradoxo agora. Vamos imaginar os indivíduos com suas faculdades mentais bem estabelecidas. Por que não existem muitos formadores? Não por falta de matéria prima, então, mas pela ausência do processo de transformação. Qualquer um pode mexer com barro, mas poucos são capazes de fazer um vaso com ele. Conhecimento não é nada. Existe uma certa noção de que a inteligência de uma pessoa pode ser suposta a partir do número de livros que lê, coisas que assiste, ouve, etc. Técnicas de leitura dinâmica permitem que se leia livros com muita rapidez, Mas não adianta nada ler 300 livros por ano se você não Pensar sobre eles.

Pensamento, reflexão. Isso é parte do processo que forma uma opinião. É preciso pensar sobre o conhecimento para poder tirar algo dele, refiná-lo, aproveitá-lo. Não produzimos tudo o que usamos por não sermos capazes de produzir ou por não estarmos dispostos ao mesmo. Então, pode acontecer que alguns não sejam capazes de pensar; mas o que eu realmente acho que acontece é a indisposição. Pensar é complicado, é desgastante, pode até mesmo ser triste. Por isso recorremos à alguma boa alma disposta a fazer esse árduo trabalho em nosso lugar. Talvez compremos uma opinião simplesmente por que todos a usam e não desejamos nos sentir deslocados. Talvez seja pura preguiça. Talvez tudo seja causado pela falta de prática.

Personalidades levam as massas a pensarem de uma mesma forma usando grandes meios de comunicação. Propaganda para vender seu produto. Talvez você não tenha todo esse poder de persuasão ou todo esse acesso à outras pessoas, mas sempre existirá ao menos um cliente para comprar o seu produto: Você mesmo. Opinião não apenas uma coisa, é uma atitude, um estilo de vida. Você realmente analisa as opiniões que compra? Você já tentou devolver ao fabricante uma opinião que tenha vindo com defeitos de fabricação? Já tentou receber seu dinheiro de volta caso estivesse insatisfeito com uma opinião recém comprada? Não. Mas sempre existe a possibilidade de se jogar fora, ou tentar reciclá-la para reaproveitar a matéria prima para uma outra coisa. E para falar a verdade, hoje em dia quase todo o conhecimento já está previamente empacotado, o que dificulta ainda mais encontrar a matéria prima “pura”. E a reciclagem exige mais uma séria de reflexões que são tão ou mais complicadas do que a transformação original…

Qualquer opinião é vendida para alguém que não esteve disposto a pensar.

Já pensou nisso?

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  1. 05/10/2010 às 9:28 am

    Interessante seu uso da analogia do barro/personalidade. No livro que acabei de ler, Jack London usa essa metáfora à exaustão: as pessoas são feitas de diferentes tipos de barro (herança genética), e são moldadas pelas mãos do ambiente.

    Quanto à compra de opinião, eu acho que o problema não é exatamente a compra de opinião – mas sim a falta de critérios no comércio. Há quem compare duas ou mais opiniões e, com base no seu substrato intelectual, decida qual lhe é mais factível. Entretanto, a maioria das pessoas, e aí que está o erro, simplesmente pega a primeira que vê pela frente. Se ao menos elas escolhessem opiniões como escolhem maçãs…

    • 05/10/2010 às 10:55 am

      Sim, com certeza, as pobres maçãs deveriam ser um exemplo na hora da escolha. Muitas coisas são usadas sem aguentar metade do que uma maçã aguenta…

      Agora, quando disse “comprar” me referia mais ao “uso imediato”. Será que aquele que pega duas ou mais opiniões para ponderar, na verdade não estaria formando uma nova opinião, própria, baseada no processo de escolha?

      O “processo de transformação” (pensamento) está aí, não é verdade?

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