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[Livro] O Homem do Castelo Alto

O Homem do Castelo AltoTítulo: O Homem do Castelo Alto (The Man in the High Castle)
Autor: Philip Kindred Dick
Editora: Aleph

A expectativa é realmente decepcionante. Não é a primeira vez que ouço falar de um livro e empolgado imagino o quão bom ele deve ser, e quando finalmente coloco minhas mãos sobre ele me deparo com com a realidade de que é muito difícil algo ser tão bom quanto você queira. Isso já aconteceu comigo antes, por exemplo, com um livro do Paulo Coelho. Mas por uma tragédia do destino, dessa vez acabou acontecendo com nada menos que este livro, considerado a obra-prima de um dos principais escritores de ficção científica. Como dito na contracapa do livro, ele se consagrou “justamente por ter conseguido transpor as barreiras que insistiam em separar esse gênero literário da Literatura com ‘L‘ maiúsculo”. E é por isso que, para mim, amante da ficção em geral, ficção científica em particular, esta resenha será tão difícil de ser feita.

“O que é realidade, afinal?”. Talvez seja essa a grande pergunta que assombrou a vida e permeou as obras de Philip (de agora em diante chamado de Mr. Dick). E dentro dela se encaixa O homem do castelo alto. O livro conta uma ficção do presente (atualmente uma ficção do passado), mais uma das histórias dentro “e se…“, as what if stories. Este livro busca uma pergunta muito boa: E se o Eixo tivesse ganho a segunda guerra mundial?

Negros são escravos, os judeus que ainda restam se escondem para não serem exterminados. A África foi totalmente destruída. O mundo é dividido entre duas grandes super-potências, Alemanha e Japão, num regime muito parecido com a nossa Guerra Fria. Resumidamente.

O livro segue a estrutura de romance, com vários núcleos de personagens que hora ou outra interagem entre si. Essa estrutura de narrativa é boa quando se tem o desejo de mostrar o cenário por diversos pontos de vista sem precisar recorrer a um narrador onisciente solto do mundo ou um único personagem que percorre uma trilha muito grande (e possivelmente sem sentido). Muitos pontos de vista são abordados, como o de um vendedor de antiguidades americano que quer subir na rígida sociedade japonesa, um judeu disfarçado produtor de joias, um alto executivo japonês, a ex-mulher do tal judeu, e ainda outros.

PKDMr. Dick foi provavelmente o primeiro a fazer este tipo de análise ficcional, mas não o único. O fato é que a grande maioria que se propõe a responder esta pergunta fica sempre na “visão pós-guerra de como teria sido a guerra”. Isto é, os nazistas são monstros, se eles tivessem ganho o mundo seria um verdadeiro inferno. Mas Dick foge um pouco de mundos ditadoriais ou cruéis, como o onipresente Grande Irmão de George Orwell ou o adestramento da humanidade de Aldous Huxley (dois livros que não deixam de serem bons, pois lidam com outra pergunta). O mundo de Mr. Dick é um pouco mais parecido com o nosso, uma sociedade com problemas mas que (quase) ninguém fica berrando por aí que é um inferno. Gostei disso, ele ficou um pouco fora do lugar comum, mas usando uma das pérolas do Galvão Bueno, pra mim o Mr. Dick ficou mais naquela de “vamos, mas não vamos muito“.

Ele fugiu do lugar comum sim, mas não se aventurou muito. Inovou, mas não Revolucionou. Como dito anteriormente, o mundo é dividido num clima de guerra fria entre Alemanha nazista e Japão, como o nosso foi entre União Soviética e Estados Unidos, e não é difícil de adivinhar quem faz o papel de quem nessa nova cortina de ferro.

Há também um fascínio inexplicável dos japoneses por qualquer bugiganga antiga americana. Eles simplesmente têm um orgasmo só de ver uma pistola da época da guerra civil americana ou mesmo um relógio do Mickey Mouse (talvez uma sátira ao fascínio que a katana causa em muitos ocidentais). Existe mais uma coisa que gira dentro da “adoração ao American Way of Life“, mas ela fica dentro da grande estrela do livro:

Outro livro.

O Gafanhoto Torna-se Pesado é uma história dentro da história, ficção na ficção. Dentro da história existe um livro (coadjuvante no começo, estrela no final) que conta a história de como seria o mundo se os aliados tivessem ganho a guerra.

Isso sim é “barra pesada”, “briga de cachorro grande”. Se fazer uma boa ficção é difícil, entrar dentro do mundo ficcional e fazer uma outra ficção dentro dele é MUITO difícil, provavelmente o clímax do poder imaginativo. O livro interno tem sim uma certa variância da nossa história, mas o conteúdo do livro em si não é dos mais deslumbrantes e inovadores. Mas afinal, o valor do livro não está em seu conteúdo, e sim no que ele representa (vide spoilers).

Antes de entrar nos spoilers, mais alguns detalhes interessantes. Dentro dos livros didáticos, existem aqueles livros escritos para ensinar os leitores, e existem aqueles escritos para mostrar o quão inteligente é seu escritor. O homem… não é um livro didático, mas Mr. Dick adorou mostrar o quão ecleticamente fodão ele é. Se você não sabe alemão terá que se virar para ler o livro, até mesmo alguns japoneses não perdem a oportunidade de falar algumas frases em alemão. O autor também se delicia ao contar miudezas históricas, e é incrível como todo o mundo é um mestre no I Ching, sabendo todos os hexagramas de cor. Aparentemente Mr. Dick se deliciou em perscrutar toda a sumidade incólume que é seu inexpugnável cabedal, unwissenden wurm. Mas isso não é um ponto negativo. Tudo isso não atrapalha a leitura. E outra, Machado de Assis muitas vezes tinha que que se desdobrar em termos complexos, e nem por isso eu deixo de gostar dele.

Existe também um estudo sobre a discussão interna sobre a abordagem interna que o livro faz do tema Historicidade. É interessante, mas não sou historiador, e não comprei o livro para estudar historicidade, o comprei pela história que ele contém. Logo, ficarei apenas com a história do livro.

Usar o recurso de múltiplos núcleos formados ao redor de diversos personagens tem também seus contras. Se você usa muitos personagens centrais, dificilmente agradará 100%, pois deverá agradar 100% com todos os personagens. Pessoalmente eu não gostei de alguns deles, mas talvez esse não seja o foco do livro…

Esse universo alternativo dá uma brecha para uma infinidade de possíveis críticas sociais ou políticas, e eu achava que encontraria alguma dentro dele. Mas não, não encontrei nenhuma crítica sólida, nenhum comentário ácido, apenas um óbvio e já batido “capitalistas se preocupam apenas com dinheiro”. O tal gafanhoto chega até a dizer o quão bom seria o mundo se os americanos tivessem ganhado. Eu havia dito antes que ele fugiu do lugar comum, mas não é possível dizer com certeza que ele fugiu totalmente dele, pois apenas o lado Japonês recebe grande destaque, com sua população por horas temendo como seria “o outro lado do muro”. Não defendendo o nazismo, mas se for para ler o que todo mundo escreve, não precisaria de um outro livro.

Mr. Dick não atacou certos pontos perigosos a serem ditos na sua época, como o comunistas, tanto japoneses quanto nazistas consideram os comunistas demônios, “bruxas”. E os nazistas são vistos o tempo todo, principalmente no final, como os grandes vilões, e como todo bom vilão eles sofrem derrota atrás de derrota. Chega a ser meio infantil neste ponto. Mas a crítica social não é mesmo o foco do livro…

A partir daqui começo a entrar dentro de detalhes internos, que podem incorrer em alguma revelação sobre o enredo (AKA Spoiler).

Existe uma trama política armada na Operação Dente-de-Leão, em que o Reich pretende  realizar uma série de falsos ataques para provocar retaliações com o objetivo de usar armas nucleares contra o japão (ou seja, mais da cópia da guerra fria). Mas em termos de tensões políticas e planos de conspiração internacional, você pode encontrar melhores em filmes por aí. O objetivo desse plano é o dilema do japão se aliar à polícia secreta violenta e monstruosa dos nazistas, pois ela é a única que se “opõe” ao plano (na verdade eles querem colocar seus homens no comando do Reich, e seus rivais são a favor do plano). Ou seja, ainda não é o foco do livro.

O foco do livro está mesmo na grande questão existencial do autor: “O que é a realidade?”. E toda essa questão só é claramente encarada no grand finale do livro, seu epitáfio. A resposta da pergunta por que o oráculo (I Ching) havia escrito o livro o gafanhoto… . O epitáfio do O homem do castelo alto fez brotar em mim todos os tipos de sentimentos, desde um alumbramento (muito leve), felicidade, expectativa e até mesmo me senti um pouco ofendido. Quando finalmente cheguei no tesouro central, me senti como aquele que escala um montanha muito alta, chega lá em cima, olha para um lado, olha para o outro e depois se pergunta: “Isso é tudo?“.

É uma conclusão óbvia, que todos sabem, mas que não é encarada face a face. Já tinha visto análises deste tipo antes, mas a pérola escondida no livro é, de certa forma, única. Mas esse clímax foi é incompatível com o livro. Ou melhor, é um clímax que poderia estar em Qualquer livro, mesmo os de não ficção. E acabei caindo no grande conflito de:

A) Considerar o livro como um todo de qualidade não muito elevada.
B) Ficar apenas com uma única frase de qualidade excepcional, e todo o resto se torna uma lama usada para escondê-la.

Ainda não sei o que escolher. Talvez fique com um meio-termo ou eu tenha uma epifania e descubra um terceiro termo. Mas fica a grande pergunta: Um único ato de bondade justifica toda uma vida de crimes? Ter que ler um livro inteiro com uma história comum apenas para pegar uma frase só não me agrada muito. E se for para se encarar a verdade, para mim, a verdade é que ninguém ganha uma guerra

Se é que você me entende…

Encerram-se aqui os possível spoilers…

Minha decepção foi o de encontrar em uma história de “e se…” uma história que poderia ter sido muito melhor, ou que eu esperava ser muito melhor. Esperava aquele momento em que suas pupilas se dilatam, sua boca se abre levemente em um “oooohh” sussurrado e um calafrio percorre sua espinha. Eureka. Nirvana. Iluminação. Não encontrei.

Conclusão: Leia por si mesmo. Não me surpreendeu completamente, mas talvez surpreenda você. Eu o achei bom, gostei, uma verdadeira obra de “L”iteratura, mas a verdade é que…

L

... Eu estava esperando um "L" deeeeeeeeeste tamanho

  1. Nenhum comentário ainda.
  1. 24/08/2011 às 6:26 pm
  2. 22/11/2012 às 8:31 am

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